Mulheres no pódio: refletindo a equidade de gênero nas olimpíadas de química do Brasil

Quézia Raquel Ribeiro da Silva,[a] Francisco Ferreira Dantas Filho,[a] Nilce Viana Gramosa Pompeu de Sousa Brasil,[b] Maria José de Filgueiras Gomes[c] y Sérgio Maia Melo[b]


Resumo

Entendendo a importância de garantir, no âmbito científico, equidade de oportunidades para todos, propomos este estudo objetivando refletir o número de meninas medalhistas ao longo dos anos nas competições: Olimpíada Internacional de Química, Olimpíada Brasileira de Química, Olimpíada Brasileira de Química Júnior e Olimpíada Norte/Nordeste de Química, bem como pontuarmos a relevância da Olimpíada Feminina de Química (Quimeninas) enquanto caminho para a inserção de mulheres na ciência. Em atenção aos dados alcançados, compreendemos que, historicamente, o número de meninas premiadas em todas as competições citadas tem sido inferior ao de meninos, fato que evidencia a necessidade de políticas públicas que estimulem a participação e interesse feminino pela ciência. Nesse cenário, reconhecemos a Olimpíada Quimeninas como importante movimento para a promoção da equidade de gênero no contexto científico, impulsionando o envolvimento ativo de meninas e mulheres na construção de conhecimentos químicos e na superação de estereótipos que regulamentam a imagem dos/as cientistas e materializam exclusões. Concluímos que, embora relevante e necessária, o fortalecimento da Quimeninas deve ocorrer em associação a outras ações que incentivem a participação do público feminino nas demais competições, haja vista a necessidade de garantir a todos os públicos a mesma projeção e oportunidades no cenário competitivo.

Palavras-chave:

Educação Básica; Pesquisa; Práticas químicas; Meninas na ciência; Competições científicas; Equidade de gênero.


Women On The Podium: Reflecting Gender Equality At The Brazilian Chemistry Olympics

Abstract

Understanding the importance of ensuring, in the scientific field, equality of opportunities for all, we propose this study aiming to reflect the number of medalist girls over the years in the International Chemistry Olympiad, Brazilian Chemistry Olympiad, Brazilian Junior Chemistry Olympiad and North/Northeast Chemistry Olympiad, as well as to point out the relevance of the Women’s Chemistry Olympiad (Quimeninas) as a path for the insertion of women in science. In view of the data obtained, we understand that, historically, the number of girls awarded in all the competitions mentioned has been lower than that of boys, a fact that highlights the need for public policies that encourage female participation and interest in science. In this scenario, we recognize the Quimeninas Olympiad as an important movement for the promotion of gender equality in the scientific context, promoting the active involvement of girls and women in the construction of chemical knowledge and in overcoming stereotypes that regulate the image of scientists and materialize exclusions. We conclude that, although relevant and necessary, the strengthening of Quimeninas should occur in association with other actions that encourage the participation of the female public in other competitions, given the need to guarantee all audiences the same projection and opportunities in the competitive scenario.

Keywords:

Basic Education; Research; Chemical practices; Girls in science; Scientific competitions; Gender equity.




Introdução

As olimpíadas científicas podem ser definidas como competições multidisciplinares que se voltam a identificação das habilidades intelectuais de seus participantes (Ventura; Silva; Silva, 2024; Almeida, et al. 2022). Inspirados no seu homônimo esportivo, tais eventos surgem em meados dos anos de 1894, em países como a Romênia e a Hungria, estando vinculadas, em um primeiro momento, aos conhecimentos matemáticos (Abreu, et al. 2022; Martins, 2018).

Seguindo a tendência, no cenário nacional, o primeiro evento dessa natureza data do ano de 1967, denominado Olimpíada de Matemática do Estado de São Paulo (Abreu, et al. 2022). Já na década de 1990 outras tantas competições intelectuais começaram a surgir, sustentadas pela narrativa de que, por serem atividades práticas, poderiam gerar melhorias para a educação brasileira e estimular carreiras científico-tecnológicas (Abreu, et al. 2022; Ventura; Silva; Silva, 2024).

No contexto da Química, as olimpíadas científicas se fortalecem a partir de uma proposta de competição postulada pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo, em 1986. Com isso, outras regiões brasileiras desenvolveram eventos similares, garantindo popularidade as competições intelectuais nessa área de conhecimento, o que culminou com a criação do Programa Nacional de Olimpíadas de Química (PNOQ), no ano de 1996 (Xavier, 2018).

Dentre as competições que compõem o referido programa, destacam-se: Olimpíada Brasileira de Química, Olimpíada Brasileira de Química Júnior, Olimpíada Ibero-americana de Química, Olimpíada Internacional de Química, Olimpíada Nacional Feminina de Química (Quimeninas), Olimpíada Norte/Nordeste de Química, Olimpíada do Ensino Superior de Química e as Olimpíadas Estaduais.

Em todos os eventos citados, há incentivos para a participação de estudantes de todo Brasil, com destaque para a necessidade de fortalecimento da participação feminina. Iniciativas como a Olimpíada Nacional Feminina de Química (Quimeninas) buscam incentivar a presença e interesse de meninas nas áreas de STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), promovendo um ambiente mais inclusivo e equitativo.

Pontuamos que tais esforços se dão no reconhecimento de que, embora a equidade de gênero na ciência tenha progredido ao longo dos anos, a participação de homens e mulheres nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática ainda é assimétrica, cenário que justifica a proposição de políticas públicas e ações afirmativas que impulsionem a carreira de mulheres nas áreas STEM.

No contexto deste estudo, estaremos especialmente interessados em avaliar o número de meninas medalhistas ao longo dos anos nas competições: Olimpíada Internacional de Química, Olimpíada Brasileira de Química, Olimpíada Brasileira de Química Júnior e Olimpíada Norte/Nordeste de Química, bem como pontuarmos a relevância da Olimpíada Feminina de Química (Quimeninas) enquanto caminho para a inserção de mulheres na ciência.

Apresentaremos a seguir algumas reflexões mais amplas acerca da temática. No primeiro momento, Desafios para a inserção de mulheres na ciência, refletimos sobre as interdições historicamente reservadas as mulheres na ciência e suas relações com imperativos culturais e biológicos. No segundo, Olimpíadas Científicas e a presença feminina, trazemos para discussão dados relativos à premiação de meninas e mulheres em diferentes competições científicas na área de Química. No terceiro momento, A competição Quimeninas como movimento de incentivo, refletiremos aspectos relacionados a esta competição, avaliando suas intenções, objetivos e potenciais contribuições.

Desafios para a inserção de mulheres na ciência

Refletindo episódios da história da Química, bem como considerando o reconhecimento e ascensão alcançados por profissionais dessa área de conhecimento, compreendemos que, historicamente, a presença feminina se manteve inferiorizada. Em um exercício de rememoração, dificilmente construiremos uma vasta lista de nomes femininos relevantes na história da Química, situação engendrada a partir das relações de poder existentes na ciência, as quais projetam os homens enquanto representantes naturais desse contexto. Conforme Silva, et al. (2023) por meio de diferentes desencorajamentos, deslegitimações e invisibilidade, as mulheres cientistas foram incluídas na ciência em posição marginal, frequentemente justificada por imperativos culturais e biológicos, que restringiram o acesso pleno das cientistas a esse espaço.

Ao refletir acerca da ausência de representatividade feminina nas ciências, Conceição e Teixeira (2018) e Silva, Tinôco e Dutra-Pereira (2023) destacam que tal cenário fora engendrado a partir da imposição de barreiras que ainda persistem na atualidade. Desqualificação quanto a sua capacidade de construir conhecimento científico, exigências socialmente construídas acerca da responsabilidade enquanto genitoras e cônjuges e apropriação indevida de suas contribuições científicas são alguns dos impedimentos experimentados pelas mulheres cientistas, os quais mantém nomes femininos de relevância longe do cotidiano escolar, determinando o homem enquanto representante natural e legítimo da ciência.

Conforme sinaliza Lima (2008) esse distanciamento entre mulher e ciência fora forjado e se fortalece a partir de determinismos sociais e culturais, os quais modelaram os caminhos profissionais possíveis ao feminino, de modo que até hoje persiste o entendimento de que existem profissões exclusivamente masculinas enquanto outras unicamente femininas.

Ao refletir acerca dessa dicotomia profissional sustentada pelo gênero, Schienbinger (2001) destaca a existência de uma maior representatividade feminina em profissões que requerem um maior esforço emocional, as quais encontram-se ligadas ao cuidado com o outro (por exemplo enfermeiras, professoras e babás), ou mesmo o atendimento ao público (secretárias e aeromoças, por exemplo). Essas distinções profissionais também foram observadas por Nunes (2017) ao destacar a constante presença feminina em atividades ligadas ao zelo para com o próximo (filhos, marido e idosos). Tal autora destaca ainda que esses afazeres tomados enquanto femininos emergem como uma tentativa de respeitar a idealizada “natureza feminina”, a qual estaria irremediavelmente ligada à benevolência, paciência e amorosidade, características não apreciadas no campo científico.

Segundo Schienbinger (2001, p. 164), essas “expectativas estereotípicas” imputadas às mulheres fundamentam narrativas que influenciam diretamente no campo de trabalho, de modo que, mesmo que se distanciem do mundo do cuidado e passem a atuar em profissões entendidas como masculinas, a identidade, a ascensão e a projeção que alcançam não são iguais a de seus pares. Conforme assinala Lima (2008), na ciência essas assimetrias existentes entre homens e mulheres fortificam-se por meio do binarismo subjetividade – objetividade, ocorrendo uma supervalorização do segundo em detrimento da supressão do primeiro. Por serem legitimados como representantes naturais da objetividade, os homens são tomados como cientistas mais adequados e valorosos, estando no cerne da produção científica. As mulheres, ao contrário, emergem em posição de descrédito e desvalorização, configurando-se como sujeitos dispensáveis e inadequados, devido a uma pseudo ausência de objetividade.

Reconhecendo o cerceamento e silenciamento destinado as mulheres no campo científico, Silva, et al. (2023) destacam a importância de se estabelecer um diálogo constante e consciente acerca de questões que permeiam as temáticas gênero e ciência, de modo que se possa estabelecer novos olhares, promover novos atores e estimular novas atitudes frente a produção científica. Nesse caminho, torna-se indispensável a formulação e desenvolvimento de ações educativas que incentivem a participação feminina nas ciências, apresentando-se enquanto meios de resistência aos desincentivos experimentados pelas mulheres em relação a inserção no contexto acadêmico-científico (Almeida; Franzolin; Maia, 2020; Franco; Munford, 2023).

Olimpíadas Científicas e a presença feminina nos pódios

Entre as políticas públicas voltadas a equidade de gênero, as olimpíadas do conhecimento, particularmente na área da Química, têm como objetivo incentivar e estimular a participação igualitária de meninas e meninos do 8º do ensino fundamental a 3ª série do Ensino Médio, a fim de que desenvolvam carreiras nas áreas STEM e se tornem agentes no desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

De acordo com os dados obtidos das Olimpíadas de Química, nos últimos 30 anos verificou-se que, embora a participação média feminina seja aproximadamente de 50%, o quantitativo de meninas premiadas em cada modalidade é significativamente menor em todos os anos no período de 1995 a 2024.

Em se tratando da Olimpíada Norte/Nordeste de Química (ONNEQ), a qual é destinada a estudantes das 2ª e 3ª séries do Ensino Médio de 16 estados brasileiros, temos que, desde seu surgimento, em 1995, tal competição apresentou o percentual de meninas premiadas variando entre 5,80% e 33,30%, com um percentual médio de 21,57%. Tais dados estão exibidos no Gráfico 1.

Gráfico 1: Meninas medalhistas na Olimpíada Norte/Nordeste de Química (ONNEQ) entre os anos de 1995 e 2024 em comparação ao total de premiados. Fonte: Elaboração Própria (2025).

Analisando os dados, é possível verificar que, dos 29 anos de ONNEQ, em apenas 6 anos de competição o percentual de meninas premiadas ficou entre 30,00% e 33,30%.

No que concerne a Olimpíada Brasileira de Química Júnior (OBQJr), surgida no ano de 2008 e destinada a estudantes do 8° e 9° ano do ensino fundamental, o quantitativo de meninas premiadas varia entre 17,14% e 56,46%, com percentual médio de 36,40%. Os dados estão expressos no Gráfico 2.

Gráfico 2: Meninas medalhistas na Olimpíada Brasileira de Química Júnior (OBQJr) entre os anos de 2008 e 2024 em comparação ao total de premiados. Fonte: Elaboração Própria (2025).

Considerando os dados apresentados, pontuamos que o maior índice de estudantes premiadas ocorreu no ano de 2019. A partir desta edição, é possível perceber que o número de meninas medalhistas vem crescendo nos últimos anos, com premiações femininas acima de 45,00%, marco que não foi alcançado apenas nos anos de 2020 e 2023. Destacamos que, entre as competições analisadas, esta é a única que se volta exclusivamente para os anos finais do ensino fundamental, apresentando índices de premiação feminina superiores aos das demais competições citadas. Tal dado nos leva a considerar que, com a chegada no Ensino Médio, fase em que se irá realizar uma escolha profissional, as meninas passam a ocupar cada vez menos pódios em competições científicas, impactando no seu interesse pelas áreas STEM.

No que se refere a Olimpíada Brasileira de Química (OBQ), destacamos que esta se estrutura em duas modalidades, denominadas de A (para estudantes da 1ª e 2ª série do Ensino Médio) e B (voltada para da 3ª série do Ensino Médio e 4ª série do Ensino Técnico). Nos Gráficos 3 e 4 estão expressos os índices de medalhistas femininas ao longo da história dessa competição.

Gráfico 3: Meninas medalhistas na Olimpíada Brasileira de Química (OBQ) na modalidade A entre os anos de 1996 e 2024 em comparação ao total de premiados. Fonte: Elaboração Própria (2025).

Gráfico 4: Meninas medalhistas na Olimpíada Brasileira de Química (OBQ) na modalidade B entre os anos de 2002 e 2024 em comparação ao total de premiados. Fonte: Elaboração Própria (2025).

No que concerne ao número de estudantes premiadas, temos na modalidade A, surgida em 1996, percentuais de premiações que variam entre 10,50% e 42,30%, com percentual médio de 21,20%. Na modalidade B, criada em 2002, o percentual médio de meninas premiadas é de 15,90%, com o maior índice obtido no ano de 2005 (30,00%). Nos últimos anos, tal modalidade apresenta premiações femininas inferiores a 20,00%.

Para os estudantes medalhistas da OBQ na modalidade A, aplica-se no ano seguinte a premiação uma prova teórico-experimental apresentada em vídeo, denominada fase IV. Após a avaliação desta etapa, seleciona-se entre 10 e 20 estudantes com melhores desempenhos para um curso de aprofundamento, denominada fase V. Tais fases se constituem como etapas seletivas para a escolha dos estudantes que representarão o Brasil na Olimpíada Internacional de Química (IChO). Apresentamos no Gráfico 5 os índices de classificação feminina nas etapas IV e V da OBQ.

Gráfico 5: Meninas classificadas nas fases IV e V da Olimpíada Brasileira de Química (seletiva internacional) entre os anos de 2002 e 2024 em comparação ao total de classificados. Fonte: Elaboração Própria (2025).

Neste estudo, avaliamos dados de ambas as fases durante o período de 2002 a 2024. Em se tratando da fase IV, observamos uma classificação média feminina em torno de 20,50%, variando entre 10,50% e 44,40%. Apenas no ano de 2004 podemos observar um percentual de classificação feminina maior que 40,00%, tendo os demais anos índices inferiores a 29,00%. Na fase V o percentual médio de classificação feminina é de 22,10%, variando de 0% a 50,00%, apresentando um percentual inferior a 16,00% durante 12 anos.

Para a Olimpíada Internacional de Química (IChO) são selecionados 4 estudantes como representantes nacionais. Conforme Gráfico 6, no período de 1999 a 2024 a participação feminina foi em média de 22,00%, tendo a presença de 81 meninos e 23 meninas.

Diante dos resultados apresentados fica evidente a necessidade de políticas públicas que garantam equidade de gênero. Nesse sentido, em 2023 o PNOQ criou a Olimpíada Quimeninas com o objetivo de aumentar a participação e o engajamento de meninas em competições científicas nacionais e internacionais. Na seção que se segue refletiremos os objetivos dessa competição e seus potenciais impactos no interesse de meninas e mulheres pelas áreas STEM.

Gráfico 6: Meninas participantes na Olimpíada Internacional de Química (IChO) entre os anos de 1999 e 2024 em comparação ao total de participantes. Fonte: Elaboração Própria (2025).

A competição Quimeninas enquanto movimento de incentivo

Em reconhecimento a necessidade de estimular o interesse de alunas nas áreas de STEM, sobretudo a Química, o PNOQ propôs no ano de 2023 a primeira competição nacional de Química destinada às meninas regularmente matriculadas no 9º ano do ensino fundamental a 2ª série do ensino médio em instituições escolares públicas ou privadas de todo o Brasil, intitulada Olimpíada Nacional Feminina de Química – Quimeninas.

A competição Quimeninas surge em atenção a Chamada CNPq/MCTI nº 03/2023, voltada as Olimpíadas Científicas. Conforme documento, os projetos devem estabelecer ações de incentivo a participação de meninas na ciência. Busca-se “estimular debates acerca do papel da mulher na ciência e o interesse de meninas em todas as áreas de CT&I, contribuindo para o protagonismo da mulher em áreas científicas” (CNPQ, 2023, p. 1).

A Quimeninas busca: do ponto de vista da avaliação, contribuir para o reconhecimento de novos talentos femininos na área de conhecimento a qual se vincula, sejam eles advindos de escolas públicas ou privadas; em se tratando da dimensão acadêmica, estimular a escolha de meninas por cursos de Química, demonstrando a relevância do engajamento em atividades de ensino, pesquisa e extensão; no que diz respeito as habilidades, favorecer o desenvolvimento do pensamento analítico e; do ponto de vista da popularização, evidenciar a presença feminina na construção de conhecimentos químicos, além de valorizar discussões quanto à aplicações práticas da Química.

Os dados demonstram que, no ano de 2023, a Quimeninas contou com a participação de 43.573 meninas do 9° ano do Ensino Fundamental e 1ª série do Ensino Médio. Nesta primeira edição estiveram envolvidas 2.072 escolas públicas e privadas localizadas em 830 municípios brasileiros. Em 2024 participaram da Quimeninas 58.696 estudantes, indicando um aumento de 34,70%. Ainda neste ano a competição aumentou seu público-alvo, integrando estudantes da 2ª série do Ensino Médio.

Desenvolvida em formato online, a competição ocorre em única etapa, composta por provas de 25 questões de múltipla escolha que juntas somam 100 pontos. Estudantes do 9º ano do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio compõem a modalidade A, aproximando-se de conteúdos das áreas de Química Geral, Inorgânica, Ambiental e Analítica. Estudantes da 2ª série do ensino médio compõem a modalidade B, se voltando aos conteúdos das áreas de Química Geral, Inorgânica, Ambiental, Analítica e Físico-Química.

As provas de cada modalidade têm duração de 2 horas. Para alunas com necessidades especiais o tempo máximo é prolongado para 3 horas. Uma vez iniciada, a avaliação não poderá ser pausada, sendo responsabilidade da estudante e escola participante garantir acesso à internet, de modo a viabilizar a continuidade da prova. É vedada qualquer tipo de pesquisa em fontes impressas ou digitais, sejam livros, tabelas e/ou sites de pesquisa.

Prioriza-se na produção de questões a citação de trabalhos desenvolvidos por mulheres cientistas brasileiras, aspecto que garante a esta competição a atuação em triplo sentido de valorização: (1) em relação as atuais contribuições femininas nos mais diversos campos da ciência, bem como a relevância destas para o desenvolvimento tecnológico; (2) no que diz respeito a importância de cientistas brasileiras no cenário científico mundial, demarcando os valores que se associam a produção científica nacional e; (3) em se tratando da representatividade, apresentando as estudantes participantes figuras femininas de inspiração.

Entre os objetivos que se articulam a competição Quimeninas se destacam: incentivar a participação e envolvimento ativo de alunas na área de Química; criar e fortalecer ambientes estimulantes para a construção de conhecimentos químicos; estabelecer vínculos entre meninas, de modo a estimular a colaboração e o interesse pela Química enquanto possibilidade profissional; garantir maior acesso para alunas em olimpíadas nacionais e internacionais; impulsionar discussões e ações que promovam a equidade de gênero, garantindo acesso igualitário as ciências e promovendo inclusão social. A participação nesta competição é totalmente voluntária e gratuita, o que fortalece o envolvimento das estudantes e contribui para o alcance dos objetivos estabelecidos.

Centrada em objetivos voltados a garantia da equidade de gênero, as intenções da competição Quimeninas revelam que a justiça social deve se apresentar enquanto busca contínua, alcançada a partir do reconhecimento das demandas dos diferentes grupos sociais e do oferecimento de recursos e apoio de forma justa. Atuar para a justiça social exige que se estabeleçam profundas mudanças sociais, voltadas, sobretudo, a eliminação de discriminações e a promoção de participação ativa de todos nos processos políticos, econômicos, sociais e científicos.

Nesse sentido, considerando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), reconhecemos que o desenvolvimento da competição Quimeninas contribui para o cumprimento do ODS 5: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Pensar a igualdade de gênero no contexto científico implica em garantir aos meninos e meninas as mesmas oportunidades e incentivos, priorizando a constituição de sociedades mais justas e igualitárias. Além disso, ao garantir visibilidade feminina, a Quimeninas contribui para o empoderamento feminino, colaborando com a autoestima de meninas que se interessam pela Química enquanto possibilidade profissional.

Quanto ao empoderamento, a Quimeninas tem por intenção estimular a superação de estereótipos de gênero que se associam aos profissionais envolvidos nas áreas STEM, os quais, geralmente, projetam homens enquanto únicos participantes nesses campos de conhecimento. Criar oportunidades iguais de desenvolvimento profissional e intelectual é fundamental para transpor as assimetrias de gênero socialmente estabelecidas.

Garantir a inserção de meninas no contexto científico contribui ainda com a diversidade nas ciências, aspecto de extrema relevância considerando que diferentes perspectivas enriquecem o debate científico, ampliando a variedade de abordagens e soluções para problemas complexos, além de tensionar a autoridade de grupos tidos como dominantes na ciência, questionando os mecanismos de poder que os mantêm em posição de domínio.

Em dimensão individual, reconhecemos na competição um espaço propício para a construção de habilidades científicas e pessoais. Cada estudante é estimulada ao desenvolvimento do pensamento crítico, resolução de problemas e análise experimental, além de incentivos a autoconfiança e a elaboração de estratégias para a superação de desafios, qualidades indispensáveis para o desenvolvimento acadêmico e profissional.

Considerações Finais

Ao longo deste estudo estivemos interessados em refletir a presença feminina entre os medalhistas de competições científicas desenvolvidas pelo PNOQ. Nos colocamos atentos as assimetrias existentes, certos da necessidade de garantir a todos os estudantes brasileiros oportunidades de acesso igualitárias no contexto acadêmico-científico. Ao final desse estudo, retornamos ao objetivo traçado de modo a pontuarmos algumas considerações e indicações.

Em um primeiro movimento refletimos as relações de poder que se fortalecem no meio científico, as quais ainda garantem os homens enquanto representantes naturais da ciência, fato que gera deslegitimação e invisibilidade das contribuições de mulheres cientistas, além de fragilidades na representatividade feminina nas ciências, impactando no interesse de meninas pelo contexto científico, visto que, muitas vezes não encontram modelos inspiradores com os quais podem se identificar, comprometendo seu interesse e sua confiança em carreiras ligadas as áreas de STEM.

Associado a isto, no segundo momento estivemos atentos ao número de meninas medalhistas em diferentes olimpíadas científicas na área da Química. Todos os dados alcançados revelaram números expressivamente inferiores de meninas premiadas quando comparados aos índices de premiações para o público masculino. Tal contexto revela a persistência de desigualdades de gênero e a urgência pela criação e fortalecimento de políticas públicas que garantam acesso, oportunidades e reconhecimento equitativo para todos no contexto científico.

Seguindo por estas trilhas, em um terceiro momento estivemos interessados em refletir as potencialidades da competição Quimeninas enquanto caminho de inserção do público feminino na ciência. Os dados obtidos revelaram que o número de meninas participantes tem crescido nesta competição, o que evidencia sua importância para a promoção da igualdade de gênero. Apesar de sua relevância, pontuamos que o fortalecimento da competição Quimeninas deve ocorrer associado a outras ações que incentivem a participação do público feminino nas demais competições científicas citadas, haja vista a necessidade de garantir a todos os públicos as mesmas oportunidades no cenário competitivo.

Ao final deste estudo, pontuamos que os dados alcançados favorecem reflexões acerca de três desafios: (I) a necessidade de delineamento de novas ações voltadas ao diálogo e incentivo da participação de meninas em áreas STEM; (II) o reconhecimento de que devem ser inseridas nas escolas iniciativas educativas que problematizem a visão estereotipada construída em torno da figura do cientista, aproximando as estudantes de exemplos femininos relevantes no contexto científico e; (III) o entendimento de que as competições científicas devem ser constantemente avaliadas no que se refere a promoção da igualdade de gênero. Esperamos que este estudo estimule outras tantas investigações acerca da temática gênero e ciência.

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Recepción: 2025-03-07. Aceptación: 2025-12-03.

Cómo citar:

Ribeiro da Silva, Q. R., Dantas Filho F. F., Gramosa Pompeu de Sousa N. V., Gomes M. J. de F., y Maia Melo S. (2026, enero-marzo). Mulheres no pódio: refletindo a equidade de gênero nas olimpíadas de química do Brasil. Educación Química, 37(1). http://dx.doi.org/10.22201/fq.18708404e.2026.1.91052



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[a] Universidad Estatal de Paraíba, Brasil.

[b] Universidad Federal de Ceará, Brasil

[c] Universidad Federal Rural de Pernambuco, Brasil